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Foi, também de lá, daquele mesmo peitoril que viu todos os sonhos, que Guidha viu o horror. Viu a guerra; viu a miséria, viu a morte, tudo isto nas formas mais cruéis, mais abjetas. E sublimou tudo isto trabalhando o papel. As palavras são dela:
"
O papel foi como uma trilha para descobertas,
para voltas, reviravoltas, para idas e vindas,
às vezes sem sentido...
Foi trazendo as imagens que se perderam nas
gargantas apertadas, nas esperas angustiantes,
que descobri como tenho mãos amigas,
abraços queridos, sorrisos de paz a me amparar...
(...)
Foi trabalhando com papel, refazendo aparas, reciclando lixo,
remexendo as entranhas, revirando a vida,
que cheguei a amigos e estes fizeram esse tapete voador
que me levou de volta à minha terra natal,
resgatando, dia-a-dia, pedaçinhos dessa história
que eu achava estar no vazio..."
Tapete Voador. A expressão diz tudo.
Esta exposição é, essencialmente, um retorno. Guidha mora na Bahia; Guidha trabalha na Bahia. Ocorre, porém, que Guidha nunca saiu de Moçâmedes, lá em Angola.
Nunca saiu daquela casa. Nunca deixou de caminhar para aquela janela donde quis e sempre quer ver o mundo.
Não é por acaso que esta exposição tem um título: Janelas ao Sol.
Janelas sempre. Uma janela em particular. Aquela janela de uma casa em Moçâmedes, com esta exposição abre-se, agora, na Cidade de Salvador.
Para que Guidha Cappelo veja; para que Guidha Cappelo seja vista.
Cidade de Salvador, maio de 2004
Cid Teixeira
Historiador e Professor da Universidade Federal da Bahia
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A Arte Naturista de Guidha Capelo
Por Matilde Matos
Guidha Cappelo é portuguesa, nascida em Angola, de onde fugiu para escapar da guerra. Na Bahia, encontrou na arte o meio de expurgar de sua alma o sofrimento do seu povo, desenvolvendo nos trabalhos sua mensagem de paz.
Escolheu como meio significativo, a reciclagem, o suporte de troncos cozidos de bananeiras, aos pedaços de madeira que tiveram uso, cipós, galhos secos, palhas, raízes de árvores que foram arrancadas, retalhos de tecidos, são os elementos que compõem suas idéias e expressam com fidelidade seus sentimentos..
Sobre a tonalidade característica do suporte reciclado, Guidha explora as curvas e ângulos, a rigidez, a maciez, o tom fosco e o brilho dos elementos que vai acoplando para lhes imprimir significado. Trabalha com a ajuda de uma ou outra cor, recorrendo também à força das palavras nos títulos.
Coerente com o que simboliza, a arte de Guidha carrega a harmonia dispersa e a atração da natureza.
Matilde Matos (da ABCA e AICA)
Matilde Matos/BA - Curadora, ensaísta e crítica de arte, assina coluna de artes plásticas desde 1970. Participou da XII, XIII e da XIV Bienal Internacional de São Paulo com a transcrição escrita do Grupo Etsedron - Prêmio Governador do Estado (1974). Fez dezenas de apresentações para catálogos, muitas reunidas na publicação 100 Artistas da Bahia.
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A CASA XIX
Texto de apresentação do trabalho de Guidha,
pela Arte-Terapeuta TÂNIA NARDES
Qual o fio que amarra as bandas de uma janela?
O que vela e oculta à Casa XIX ?
O que lhe cega, desencarna a sua cor ?
De que são feitas as suas fibras e as suas teias?
O que a enferruja, emperra, oculta?
De que madeira esculpiram as suas trancas ?
O que esconde?
O que tem medo de sair?
“ ... e no meu sonho, tem sempre a resistir , uma janela, vedada, lacrada, duas bandas acorrentadas ...” pelo tempo, pelo banzo, pelos contos e saudades de fios ... fios da vida, da infância, fios dos cabelos negros de uma menina, presa e amarrada a uma guerra, fios que matam, que ferem, fios que partem sonhos e corações, e revelam a dor de Margarida, doce pérola, doce Guidha, todas presas, ocultas, sem cor, sem luz, sem ar, fechadas ao brilho, ao tom, lacradas em teias, em cantos escuros da Casa XIX.
Ostras fechadas, feridas abertas, além das dores, além-mar ...
Fibras, fios, contas, faz de conta, fios em contos, fios em pérolas, fios em Eus ...
Tecer, cardar, encordoar, fiar, contos e contas em fios que voltam a laçar, ligar, mesclar,
reciclar, fazer e renascer em novas roupagens e papéis, pergaminhos, sementes de
papiros, fibras do amanhã ... alimentos à cozer, cerzir, trançar e construir, novos fios,
novas peles e texturas, fortes fios a conduzir, guiar, guidar, caminhos da pérola,
e salvam assim a dor, “Libertas Salvador!”
Tecelã em criação a perolar novos fios, fios de fogo, molhados com salivas de nácar,
a transmutar, jóias em fios, brilho em luz, nuanças cintilantes que soltam as pontas,
e correm ao vento, e valem e varrem o tempo, e livres se fazem ao abrirem em dois,
e em duas também se abrem, as bandas de uma janela, aquela, a da casa XIX.
Encandeia, clareia, desvenda e reascende, o tom, a cor, matizes e fios, que tornam a untar,
ungir, desemperrar e libertar o que antes entrou, e já saiu, e reciclou, renasceu, em sol,
em cor, fios, fios de ouro o amor ... a sustentar, os fios de sol, no eterno caminhar, na
carruagem de fogo, na trajetória da vida, no brilho e resgate de uma canção à perola ...
Também margarida, mel em fios, trancelim de ouro, ligando Angola e Bahia, no caminhar
da mente, bordada em áureo, em um só fio, o mais precioso,
aquele que se uniu ao coração de GUIDHA
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